Do medo ao êxtase

Era uma terça-feira à noite, já no final do encontro de meditação que eu frequentava. Eu estava saboreando a minha comida e caminhando lentamente em busca de uma conversa interessante. Já estava cansada e pensando em ir embora, quando ouvi duas pessoas conversando com muito entusiasmo sobre um convite irrecusável que tinha acabado de ser feito por uma delas. 

"Não acredito" - pensei alto, já olhando para elas - "esse sempre foi o meu sonho! Posso ir junto?". 

Em um primeiro instante, ambas demonstraram surpresa e ainda mais entusiasmo por terem repentinamente ganhado mais uma integrante para aquela suposta "loucura não planejada" que estavam prestes a fazer. Logo depois, surgiram dúvidas sobre o meu real interesse no plano, mas eu garanti que sim, estava dentro, e combinamos de nos encontrar no dia seguinte logo cedo para irmos no mesmo carro. Demos boa noite, e já com o coração levemente acelerado pela ansiedade, voltei para casa e dormi sorrindo. 

Acordei com um mix de sentimentos. Parte de mim estava animada e orgulhosa pela espontaneidade daquele grupo de 3 mulheres, trazendo um certo sentimento de "juventude e liberdade" para um dia que deveria ser apenas uma normal quarta-feira. Outra parte de mim já estava experimentando o sentimento mais primitivo do ser humano: o medo. 

Na real não tinha nada de "loucura" naquilo, mas chamar de "louco" o simples fato de eu ter tomado aquela decisão 10 horas antes de entrar em um carro com duas pessoas (que eu conhecia, mas não tão bem), trouxe ainda mais motivação para a minha jovem mente, que já estava percebendo as antagônicas sensações físicas que acompanhavam o êxtase de quebrar um medo. 

No carro, só falamos do que estávamos indo fazer - bom, falamos de outras coisas também, mas minha memória seletiva só lembra desta parte da conversa. E é claro que cada palavra só confirmava as infinitas histórias que a minha mente já havia criado desde a primeira vez, aos 7 anos, que sonhei com aquele momento.

Não lembro muito bem o que fiz logo que chegamos lá, mas lembro que precisei fumar para dar uma acalmada (mesmo não sendo fumante), e provavelmente devo ter ido ao banheiro - já que geralmente medo me dá dor de barriga (se você está rindo disso, saiba que é normal e logo mais explicarei biologicamente o porquê deste incrível fenômeno). 

Do banheiro, vesti aquele macacão bonito e entrei no avião. Naquele instante meu corpo já demonstrava todas as reações do medo e do êxtase, fazendo eu me questionar se aquele seria o meu último instante de vida ou se seriam os melhores segundos da minha existência. 

Eu sempre me considerei uma pessoa corajosa. Não tenho muitos medos, pelo menos não os mais "comuns", como o de altura, insetos, avião, escuro, ou até mesmo medo de morrer. Para não mentir para vocês, carreguei por uns 15 anos um medo irracional de aranhas caranguejeiras, medo este que foi criado por um pesadelo que tive quando criança, onde eu encontrei uma aranha gigante e peluda debaixo do armário da cozinha. Depois de anos me expondo continuamente a este aracnídeo na tentativa de nos tornarmos amigos, não tenho mais medo de aranhas, mas digamos que prefiro evitá-las, e se eu penso naqueles pelos e garras, já me dá um certo frio na barriga. Tirando isto, não havia outros grandes medos que me perturbavam. 

Ainda assim, alguns medos são inevitáveis e até mesmo instintivos.

Mesmo com toda a minha motivação por estar realizando algo que sonhava desde os 7 anos, cair em queda livre a 200km/H de 12.000 pés (aprox. 3.650m) de altura, com uma pessoa "amarrada nas suas costas", e uma mochila que promete abrir e salvar a sua vida, parecia lindamente assustador.

Olhando pela janela as casas e árvores se tornando pontinhos minúsculos lá embaixo, me lembrei da conversa que tive antes de entrar no avião com o mesmo instrutor que estava agora grudado nas minhas costas. Eu perguntei a ele como que era saltar inúmeras vezes por dia como a sua profissão, e ele contou que o maior desafio era manter a melhor energia possível (como instrutor) de coragem e êxtase ao sentir de forma tão intensa e próxima o medo da pessoa que eles carregavam em seus peitos durante o salto. 

Uau. Aquilo me fascinou. A vida de uma pessoa dependia deles, e manter a sanidade mental e espiritual quando alguém amarrado em você está pirando o cabeção (algumas pessoas realmente surtam antes de saltar), me pareceu uma prática admirável de auto-controle, paz interior e confiança. 

Pediram para eu colocar os óculos e me perguntaram se eu estava pronta. É claro que estava. Será? Eu seria a primeira da turma. 

Mãos suando. Coração a mil. Mente no maior estado de presença possível. Nervos à flor da pele. Medo de morrer - uai, achava que não tinha esse medo (!?). Eu sabia que a chance era BEM pequena, menor que morrer sendo mordida por um cachorro ou andando de bicicleta, mas vai que o paraquedas não abre BEM na minha vez, e toda a sorte que tive com meus três cachorros se transfere no azar de fazer parte desta triste estatística do paraquedismo. 

Estávamos pendurados na porta, olhando para as nuvens e a imensidão do céu. 

A minha única vontade era de saltar.

Saltamos.

... 

Em menos de um segundo, todo aquele medo sumiu e com intensidade ainda maior nas reações físicas e emocionais, se transformou em euforia, liberdade, êxtase, vida. Eu não conseguia acreditar o quão incrível era aquilo. O quão lindo era voar. O quão bom é estar viva. O quão divertido é babar pra cima de tanto gritar durante uma queda livre.

Como num piscar de olhos, pousamos. Minhas pernas tremiam e no meu rosto estava estampado o maior sorriso que já devo ter dado na vida. Após instantes em silêncio literalmente voltando para a terra, só conseguia pensar: "quero ir de novo". 

Pular de paraquedas foi uma das experiências mais maravilhosas que já vivi, não somente pelos óbvios motivos já descritos acima, mas por que fez eu me fascinar pelo poder do MEDO na nossa vida.

Passei horas - desde o momento que decidi na noite anterior espontaneamente pular de paraquedas - até um segundo antes de saltar daquele avião, sofrendo APENAS com as projeções dos meus medos. Ouvindo minha mente contar histórias do risco que aquilo seria. Sofrendo com as imagens do paraquedas não abrindo. Sofrendo por obviamente não querer pensar nessas baboseiras, pois eu "sabia" que nada iria acontecer. Era o medo de sentir medo. Mas ao mesmo tempo, aquele medo era o que me dava a energia maravilhosamente GIGANTE de entrar naquele avião e pular. 

Em frações de segundo, o mesmo medo que nos paralisa pode se transformar em movimento libertador, prazer e felicidade pura.

Com isso em mente, trago desde então um questionamento: quantas vezes não sofremos muito mais que horas, às vezes dias, anos, ou uma vida inteira, acreditando nas imagens da nossa mente - criadas por nossos medos, e projetando as histórias sem pé e nem cabeça de um futuro infeliz, que constantemente surgem no nosso cérebro e confirmam a reação mais óbvia de defesa: a paralisia? 

Em tempos em que ansiedade, stress, depressão e pânico tomam conta de milhões de pessoas no mundo inteiro, posso me adiantar na resposta e dizer que SIM, somos loucos o suficiente para sofrer a partir da imaginação fértil de nossos cérebos, vivendo (ou não vivendo) grande parte da nossa vida a partir do medo. E muito além disso, criando um mundo cheio de violência, guerra, separação, traição, racismo, corrupção: reflexos sociais dessa loucura que habita cada um de nós. 

Porém, é importante frisar que essa mesma imaginação pode trazer o sentimento oposto, criando sonhos, planos, fé e histórias de um futuro abundante e fruto do amor, construindo então um mundo de paz e união. 

Em um certo nível, o medo pode ser saudável, nos dando até mesmo força e motivação para agir. Mas em muitos momentos, o medo nos congela, causa paralisia e bloqueia o potencial humano. 

Nos nossos mais antigos ancestrais, o medo nasce como característica para a sobrevivência. Só que nos dias de hoje, onde fugimos de nós mesmos e não de leões ou felinos de dente de sabre, me parece que ao invés de sobreviver, estamos nos tornando o nosso próprio predador e nos matando por causa de tanto medo. 

Que cada vez mais nós paremos de viver as ilusões criadas por nossos medos, gerando movimento para que nossos pesadelos se tornem sonhos e nos permitindo saborear a simples beleza da vida. 

 

Se você ainda não pulou de paraquedas e ficou com vontade, indico o pessoal da Queda Livre: www.quedalivreparaquedismo.com.br/salto-de-paraquedas