O caos e a ordem de se afinar

Qual seria a graça da vida se nos sentíssemos sempre sãos?

E como encontraríamos a paz se existesse somente o caos?

São essas as perguntas que tenho me feito diariamente nos últimos tempos, perguntas essas que me trazem respostas que geralmente me trazem mais perguntas, e que me levam do caos à ordem e da ordem ao caos em um piscar de olhos. 

Loucura? Não. Ou sim. Mas essa é a mente humana, e também a graça de estarmos vivos.

Aliás, não vou dizer que é a graça, pois eu tenho sofrido um pouco com isso. Mas acho que essa linha extremamente tênue entre o caos e a ordem, que balança pra lá e pra cá me fazendo transitar por ambos o tempo todo, é na verdade o que me traz o êxtase de estar viva. E de acordo com Joseph Campbell - quem aprecio e admiro por todo trabalho, pesquisas e sabedoria - é essa a razão de estarmos vivos. 

Viver demais no caos (principalmente aquele interno), pode nos levar à loucura. E viver demais na ordem, também - às vezes até mais. E por mais paradoxal que isso pareça, viver uma vida louca também pode nos trazer sanidade, desde que saibamos caminhar entre ambos em paz.

Acabei de te contar que ando sofrendo um pouco com tudo isso, mas o sofriemento é uma escolha (disso eu tenho certeza), e eu não sou louca e escolho não sofrer. E é dessa habilidade que quero falar aqui. 

A de encontrar a paz nessa loucura toda, na ordem ou no caos, interno ou externo. 

Tenho vivido dualidades e extremos na minha vida, que são a razão de ter se intensificado essa minha necessidade de buscar a paz na ordem caótica e o equilíbrio entre a loucura e sanidade. E vou te dar um breve contexto do meu momento:

Meu coração vive em Liechtenstein, numa casinha de madeira de 18m2, com banheiro compartilhado (fora de casa), sem água encanada (pegamos direto da fonte), eletricidade limitada, no verde das montanhas e da floresta, com as vacas ao lado, na vila de 3mil habitantes, no país de 37mil, onde os carros brequam 100 metros antes da faixa de pedrestes, as pessoas apertam a sua mão ao te conhecer, cuidam de tudo que é público e respeitam o privado de forma admirável. Mas meu coração também vive em terras tupiniquins, mais especificamente na da garoa, São Paulo amada, cidade cinza e de concreto, com quase 12 milhões de habitantes, carro pra todos os lados, consumismo maluco, inspiração e diversidade que fascina, onde a cultura me apaixona, e onde os carros passam por cima dos pedestres, as pessoas te beijam e te arranjam um apelido logo no primeiro encontro, e dão um jeitinho para ser dar bem mesmo que isso prejudique o espaço público ou invada o privado. 

Entre as montanhas e cidade grande, escolhi então viver mais nômade, para não criar raízes em nenhum dos dois. Vou onde meu coração e os projetos me chamam, e esse caos me traz paz. Mas essa paz também me traz caos, pois meu trabalho é instável, vida financeira uma loucura, às vezes trabalho muito, às vezes nada, as pessoas estão sempre mudando, as culturas mudam, eu mudo. E em meio de tantas mudanças, meu corpo, mente e espírito acabam vagando entre os mais variados efeitos e emoções do caos e da ordem. 

Mas não é da minha vida que vim falar aqui. E sim da minha busca há alguns anos: aprender a me AFINAR. Para um violão que está sempre em uso, é uma ilusão achar que as cordas estarão sempre afinadas. Para um ser humano que está vivo, é outra ilusão achar que tudo estará sempre lindo e em equilíbrio. A diferença, é que o violão você pode dar para alguém afinar para você, a sua vida, não. 

Estamos o tempo todo transitando entre o caos e a ordem, entre a felicidade e a tristeza, o amor e o medo. Ora nos conhecemos muito bem, ora não mais. Aí vem as mudanças, as dificuldades, as novidades, fracassos e sucessos. Aqueles que decidem viver com ainda mais intensidade, a vida vai presenteando com surpresas de intensidade proporcional, carregando, é claro, as gostosuras e dificuldades dos tão amados: caos e ordem. E os que não sabem se afinar, vão, inevitavelmente, sofrer mais. 

Aprender a se afinar significa reconhecer o desequilíbrio e agir para buscar a paz que está faltando. Se afinar significa ter consciência daquilo que acolhe a nossa alma, nos conecta com o nosso melhor e nos traz para o nosso centro. Se afinar significa se conhecer cada vez mais, em busca daquele êxtase na experiência de estarmos vivos. Se afinar pode ser ficar sozinho ou encontrar alguém, respirar fundo, gritar, meditar, suar, ir para a natureza, trabalhar, tomar um banho de cachoeira, cantar alto no chuveiro, escrever, estar com pessoas, estar em flow, viver e apreciar a vida. E cada um se afina de um jeito único e especial, junto ou separado, rápido ou demorado. 

No momento, meus ambientes externos são extremos de caos e ordem, e vivo ambos os sentimentos nos dois lados do oceano. Mas eu escolhi viver assim, e da mesma forma que tenho o poder de escolha e ação, tenho o poder de me afinar cada vez que sofro ao transitar entre estes opostos, para encontrar a minha paz independente da onde eu esteja ou do que eu sinta.

O violão vai desafinar de novo, e saber disso é o que também me traz a paz. E você, independente se estiver agora (agora mesmo) se sentindo no caos ou na ordem, seja interna ou externamente, saiba que isso vai mudar, e depois mudar de novo, mais uma vez, eternamente, mas que está nas suas mãos aprender a se afinar muito bem em busca da melhor experiência de vida que você possa ter aqui. 

"Muitos dizem que o que buscamos é um significado para a vida. Não acredito que seja exatamente isso o que procuramos. Para mim, o que buscamos é viver a experiência de estarmos vivos, de maneira que aquilo que experienciamos meramente no plano físico tenha ressonância em nosso mais profundo ser e em nossa própria realidade; algo que nos permita sermos capazes de sentir o verdadeiro êxtase que há em estarmos vivos." Joseph Campbell, O Poder do Mito