T-C-H-A-U

Por que é tão difícil se despedir?

Semana passada me vi novamente chorando, sozinha, no aeroporto, depois de me despedir do meu amor (que é Europeu, e nem sempre estamos juntos - fisicamente). Já passei por isso várias vezes, e em TODAS elas foi a mesma coisa: choro, dor, vontade de não soltá-lo, e até raiva por estar passando por isso de novo. 

Disso surgiu um incômodo, pois reconheci um padrão. Acho que quando sofremos repetidamente pela mesma razão, é preciso analisar. E a questão que me pegou foi: não é só do marido que tenho dificuldade de me despedir. É, sendo bem honesta, de [quase] tudo. E acho que não estou sozinha nesse barco.

Não sabemos nos despedir por que não sabemos encerrar ciclos.

Sofremos ao nos despedir de quem amamos, por que amamos de mais. E esse amor justifica o desejo de estar junto o tempo todo.

Não conseguimos terminar com o namorado, por que não amamos mais, e vivemos na ilusão de que devemos poupá-lo da verdade - já que nos ensinaram que ela dói. 

Não sabemos nos despedir da blusa preferida que não usamos há anos, pois mesmo não a amando mais, a sua presença nos trazia uma boa lembrança. 

Não conseguimos pedir demissão do trabalho que não gostamos, pois a incerteza de conseguir algo melhor é mais forte do que a certeza de estar na pior. 

Odiamos quando termina uma viagem, por que ela foi perfeita, e queremos que dure para sempre, já que depois que eu me despedir - a perfeição não existe mais. 

E é claro, não sabemos MESMO nos despedir daqueles que morrem, pois mais uma vez, amamos de mais e queríamos ter a presença dessa pessoa eternamente ao nosso lado. 

Sofremos ao nos despedir, pois temos medo de nunca mais ver ou possuir aquilo ou aquela pessoa. Sofremos, pois temos medo de ao nos despedir (mesmo não amando mais), estarmos no limbo, no vazio, no incerto. Sofremos, pois acreditamos que o amor justifica tornar imortal aquilo que mais queremos e mentir para o que não queremos mais, no desejo de não ter que dizer TCHAU. Sofremos ao encerrar ciclos, por que temos medo de nos arrepender do que não fizemos antes, ou por que temos medo do futuro que está por vir. 

Achamos que dar tchau é perder. 

E sofremos, por que em algum momento achamos que possuimos.

O que fica para mim é que, ao nos despedir, a dor quase sempre vai ser inevitável, mas o sofrimento é uma escolha. No final, a única coisa que possuimos é o presente. A vida está passando como um filme, aqui, agora, na nossa frente, e estamos preocupados demais em nos despedir de todo o resto, sem perceber que estamos mesmo é dizendo tchau para o que temos de mais precioso: o agora.

 

 

Foto: Thomas Leuthard