Workshop M.A.R. - Um relato

Texto por: Mariana Rodrigues 

O convite dizia “venha com roupas confortáveis”. Só que no domingo e depois de três sonecas do despertador quase às sete da manhã, o conceito de roupa confortável some, a visão falha e as cores se misturam. Quando eu vi, estava saindo de casa vestindo uma legging preta com manchas de cloro, o cabelo desgrenhado e com a promessa de um café vegano com desconhecidos. Tudo bem, tinha sol e, talvez por um milagre do natal que se aproxima, eu não estava atrasada. “Baita dia promissor”, pensei.

O destino desse figurino todo era o Workshop M.A.R (Medo, Amor e Revolução), a princípio um evento tão excêntrico quanto a minha própria capacidade de pensar em coisas doidas para me meter. Isso é efeito dos 30 chegando, não nego, e nesse vendaval de sentimentos e questionamentos que me tomam eu já fui parar em astróloga, fiz yoga tibetana, curti a página “poções, feitiços e magias” e pedi reza pra Dona Ivone da padaria. Vale tudo na busca pelo meu eu melhor e como, desde o fim de 2015, eu não poupo esforços nessa arte, não foi difícil caprichar na tarefa de casa (aquela antes do encontro): O que te limita? Quais os seus medos? Olha, não me dá a chance de fazer lista porque eu não sei brincar.

Eu cheguei com uma folha repleta de bolinhas, com cada medo na frente e setas que saiam de frases sinalizando os medos filhotes. Um horror. É incrível como a gente vai vivendo e acumulando essas barreiras, como se escondesse mesmo todas elas e quando alguém pergunta...bom, quando alguém pergunta não acontece nada porque assim, de imediato, ninguém assume a paternidade ou maternidade desses filhotes né. Não é nada simples. Mas domingo não tinha desculpa, não tinha pra onde fugir e tinham testemunhas.

Éramos vinte, vinte um com a Raíssa que conduziu a gente nessa empreitada, e a verdade é que só um café com quem vai chegando e dividindo uvinhas e pães gostosos não é o suficiente para saber se você pode mostrar vontades e fragilidades. Mas sentar em roda ajuda, ficar descalço e pisar na areia também, se apresentar quebra o gelo e olhar no fundo na alma então, nem se fala. Consenti. Aceitei o que preciso compreender e tentar mudar. Nomeei meu medo maior (encontrei a nave mãe), prometi bater papos com ele e evitar sua procriação, quem sabe um dia ele faz as malas de vez e aparece só em visitas esporádicas, “pra um vinho” - é pomposo esse aí. A magia foi acontecendo naturalmente e quando percebi estávamos no A. Falamos de empatia e amor para chegar até ela: a revolução. E aí, nesse ponto, eu já queria bem cada ser daquela sala bonita.

Queria ser Tereza, Luiza, Joana, Ariella, Pat, Michelle e Thiago. Queria abraçar a Favi, a Ana e as Carol(s). Queria rodar com a Nara e a Rita e dançar com a Flávia, a Marcy, a Gabi, a Mari loira, a Aryel e o Gustavo. Eu queria tudo isso e mais um pouco no fim da tarde. Me entreguei e ensaiei uma ligação. Teve ainda quem arriscou cair para ser segurado, teve quem abraçou estranhos, quem prometeu vender bens, quem foi demitido para se demitir e teve até uma linda que leu o céu. Eu não sei os outros, mas eu levei alguns caldos. Mas pela lógica do dia, esses caldos são necessários e é com eles que vamos seguindo. Não tem fim. Gente, não tem fim. E também é mar sem volta. A experiência clareou a mente e mostrou até que devo vestir a legging preta e com manchas de cloro mais vezes: deu sorte, acertei no look, fiquei confortável para nadar e acho até que estava gatinha. Mas não sei. Na verdade não estou preocupada com isso agora. Desde o tal domingo relatado, essa vida de pegar ondas tem me tomado muito tempo. Sigo surfando.

Mariana é jornalista, 100% mineira, pisciana e jura que resistiu à tentação forte de fazer todo o relato com palavras do mar. Marinheiros, tripulação, conchinhas, marolas, âncoras, ondas e peixes serão distribuídos pelos próximos textos que virão. Essa maruja aqui não para mais de escrever. ;)

Obrigada!